Desatino na calçada, em frente a caixa de correio

Adivinha só?! Aquela placa de aluga-se pendurada na fachada do meu peito vago deu resultado. Não custou muito para a insanidade bater na minha porta a procura de abrigo, sorrindo travessa e pedindo a vaga que abandonaste ao partir naquele dia. Confesso que tive medo de dar teto à loucura, mas pavor maior ainda era o de dormir em casa vazia com o barulho do vento que nem chega até a mim. Sozinha não dá! Tenho uma gaveta de contas a pagar, um sorriso a sustentar e uma vida a continuar.

Ouço coisas - nem pense que isso me agrada. Minha companheira é só isso mesmo…  uma companheira e jamais uma amiga. E é culpa dela o fato de o chuveiro cantar o repertório que costumava ouvir de mim, de cama dançar me causando insônia e uma tremenda dor na coluna. Mas o pior ainda é aquele piano em que você chorou tocando aquela música linda, cujo título me fugiu agora da memória, ele que hoje chora abandonado no canto da parede. Ainda arrisco algumas notas só pra ver se ainda funciona e o som que ouço parece mudo; Tem tom de tristeza, de magoa empoeirada, parece barulho de quarto vazio. Eu choro, reclamo, grito, quebro um copo de vidro… a insanidade me consola.

Eu recuso ajuda, óbvio, você bem que me conhece. O orgulho persiste, o choro arranha a garganta, o grito vibra dentro de mim (repreendido), e atrapalhada com minhas falas só reclamo dos cacos de vidro que ainda estão no chão. “Porque ainda não limpou?” pergunto a minha pobre companheira, até que lembro que a culpa é só minha - coitada da insanidade. E copo nem era de vidro, era de cristal e custou uma nota. Sozinha não daria!

Perdi a grana do aluguel, em breve serei despejada. E se você resolver voltar? certamente não estarei mais aqui. Promete me procurar? apesar de saber que foges do difícil e desiste das suas lutas eu ainda espero. Tola de mim, eu sei… desorgulhada, desposturada, desmimficada. Comigo vai a Sânia (que até já ganhou apelido), e aqui fica a saudades, essa carta mal escrita e minha esperança irreprimível. Espero ver todas outra vez.

 (docesafagos)

Para cada lágrima há um sorriso que dará abrigo ao coração. Eu sei, desde que aprendi a sentir, que a gente chora pra depois sorrir e depois voltar a cair nos prantos. Lágrimas demais matam a gente ressecada ou quem sabe de hipertensão, e sorriso demais enjoa, faz subir as taxas da diabete. Bom mesmo é viver entre as dores dessa vida esperando as delícias que se tornam cada vez melhores. Ser feliz mesmo é saber dá valor aos altos e ser perseverante ao tropeçar nos baixos.
E, no fundo, cada um sabe ser feliz; cada um sabe andar sob corda bamba e encerrar o espetáculo como um digno equilibrista, sorrindo orgulhoso – só pra depois voltar a pisar sob ovos nesse vai e vem da vida.

 (docesafagos)

- Lembra que eu disse que perguntaria para a mamãe o que era amor? - Miguel falou, as mãozinhas juntas por trás das costas; satisfeito por mais uma descoberta.

- E então, o que ela disse? - Luíza perguntou curiosa.

- Ela disse que era o motivo pelo qual me queria sempre perto - Miguel disse, sentindo-se esperto.

- E por que ela iria querer você por perto?

- Ora, porque eu sei fazer os melhores biscoitos do mundo.

- Então amor é um biscoito?

- Acho que sim - Miguel falou sem titubear.

- Pois meu pai falou que o amor é o que nós faz feliz - Luíza contrariou.

- Ah, mas biscoito faz a mamãe feliz.

(docesafagos)

Bastou um olhar. Sem mais explicações, senti uma vontade súbita de ler-te do início ao fim. Senti que precisava saber o desfecho da história que saltara dos seus olhos cor de mel. Quis devorar-te a partir da saudação e só parar, sorrindo, ao chegar no último ponto final; quis interpretar suas entrelinhas e viajar nas suas palavras. Quis fazer-te aquele meu livro de cabeceira, sempre ao meu lado nas noites frias.

(docesafagos)


   Eis que já nem sei onde perdi os retalhos de mim. É certo que esqueci até mesmo da sensação de ser completa e passei a me acostumar com ser pedaços. Mas ainda sei que o mais belo é ser inteiro e poder andar a somar ao invés de dividir. Afinal, o céu gigante teria a mesma beleza se estilhaçado em mil cacos espalhados mundo a fora? Seria confortante, para aquele que costumava deitar na grama para apreciar o velho gigante, encontrar as estrelas derramando a saudade do que foi, um dia, constelação? Eu te digo, não. 
   Enquanto sou fatias, não sou realmente eu. Diga-me se o mar que invade seus sonhos pode estar no pouco de água em um copo de vidro. Diga-me que, se olhar para a água nada límpida, não vai concluir, com pesar, que é apenas líquido salobro; e não seu querido mar.
   Por isso, trago uma trouxa e cato meus pedaços para tentar, enfim, restaurar-me. Esse é meu oficio. Outro dia, encontrei-me até em poeira que o vento trouxe. Mas, até hoje, espero meia para ser inteira outra vez. Espero chorando as lágrimas da doce estrela perdida e do sal no copo de vidro. Espero em retalhos a serem costurados mais uma vez.
   (docesafagos)in Espero meia para ser inteira.

   Eis que já nem sei onde perdi os retalhos de mim. É certo que esqueci até mesmo da sensação de ser completa e passei a me acostumar com ser pedaços. Mas ainda sei que o mais belo é ser inteiro e poder andar a somar ao invés de dividir. Afinal, o céu gigante teria a mesma beleza se estilhaçado em mil cacos espalhados mundo a fora? Seria confortante, para aquele que costumava deitar na grama para apreciar o velho gigante, encontrar as estrelas derramando a saudade do que foi, um dia, constelação? Eu te digo, não. 

   Enquanto sou fatias, não sou realmente eu. Diga-me se o mar que invade seus sonhos pode estar no pouco de água em um copo de vidro. Diga-me que, se olhar para a água nada límpida, não vai concluir, com pesar, que é apenas líquido salobro; e não seu querido mar.

   Por isso, trago uma trouxa e cato meus pedaços para tentar, enfim, restaurar-me. Esse é meu oficio. Outro dia, encontrei-me até em poeira que o vento trouxe. Mas, até hoje, espero meia para ser inteira outra vez. Espero chorando as lágrimas da doce estrela perdida e do sal no copo de vidro. Espero em retalhos a serem costurados mais uma vez.

   (docesafagos)in Espero meia para ser inteira.

Desumanidade

   O problema é que somos humanos. Não é isso o que sempre dizem? Errei, afinal sou humano. Menti, trai, não consegui; afinal, sou humano. Está certo, é isso ai. Ou quase. O “ser” humano, pelo que conclui, consiste em permitir-se falhar apenas por já ter falhado antes, é covardiar-se diante dos defeitos e deixar-los dominar a si. Humano é ser errado? Ser torto e incorrigível e ao final do dia orgulhar-se de tudo isso? Então que eu seja uma borboleta, que metamorfoseia-se até encantar o mundo com suas cores, até fazer a diferença. Não quero ser errante contentada. Que eu seja um peixinho colorido ou uma frágil formiga, mas que eu saiba exatamente que o que eu sou não define quem eu sou. Que eu saiba que posso ser cada vez melhor. 

   Não quero esperar, a vida inteira, a felicidade chegar até a mim quando posso alcança-la com um pouco de esforço, talvez apenas com uma ponta de pé - que hábito mais estupidamente humano. Não quero ficar sentada em casa, transbordando de orgulho, com um pote de sorvete em uma mão e o celular na outra, esperando ele tocar. Não quero olhar nos olhos de quem um dia amei e ver ali uma brasa viva de decepção. Ah, não! Nessa vida eu quero olhar para trás, algum dia, e ter certeza que fui o menos humana que pude ser.

   (docesafagos)

   Olhos transbordando, coração vazio, sorriso desaparecido e garrafa de vinho barato em mãos. Sentado de fronte a janela, Augusto encarava a vida. Sofria de cirrose de tanto afogar suas lágrimas, tinha os pés dormentes de tanto caminhar sobre os cacos do seu próprio coração e a depressão era sua melhor amiga. Pobre senhor! olhava o relógio de pulso como se esperasse que ele engolisse as horas e o deixasse viajar o tempo. Para o fim, quando enfim abandonaria essa vida vil. Ou, melhor ainda, para o passado, quando foi feliz. Queria voltar a sentir o cheiro das chuvas de verão batendo sobre o seu rosto juvenil, sentir as gotas batendo na palma da sua mão e escorrendo por entre seus dedos. Ironicamente, agora chovia, mas ele já não tinha nem um terço de seu olfato, e suas mãos pendiam dormentes ao lado do seu corpo. Queria poder olhar no espelho e ver aquele moço cheio de vitalidade que um dia costumava sorrir, mas só enxergava um velho enrugado e triste. Não! queria voltar a ser criança, correndo travessa de adultos que balançam vassouras no ar gritando ofensas, irritados com suas traquinagens. Agora, mal conseguia andar sozinho. Mas queria, acima de tudo, suas lembranças. Queria poder lembra detalhadamente da sensação da mão de sua esposa amada segurando a sua, do gosto de maça caramelada e pipoca recém estourada, do cheiro de café no fim da tarde ou do sabor de um beijo cheio de amor. Não lembrava. Se já não podia, nem mesmo em recordação, sentir outra vez tudo que um dia o fez feliz, como podia sorrir? seu sorriso foi fiel aos seu mais esplêndidos dias. Quando enfim acabaram as chances de vivê-los, o sorriso não mais aparecia. Nunca mais apareceu. Afinal, não tinha mais expectativas. Nem ousava mais sonhar. Ah, mas que desgraça é viver sem sonhos!    O copo agora já estava vazio. Augusto ainda encarava a vida. Era bom naquele jogo: passará horas ali, e nem um rubor invadiu seu rosto. Por fim, alguém rendeu-se. Augusto ou a vida?   Augusto enxugou as lágrimas, largou o copo, de repente, e sorriu. Sentiu uma fisgada na altura da barriga. Já havia sentido aquilo… chamavam de frio na barriga. Enfim, lembrou. Lembrou de cada motivo pelo qual curvava os lábios um dia. Ergueu as mãos para fora da janela e sentiu as gotas d’água acariciarem seus dedos. Respirou seu ultimo sopro de vida.    Encontraram-o na manhã seguinte. Ainda sentado em frente a janela com seus noventa e cinco anos pesando em suas costas corcundas. Morreu de velhice, era o que comentavam por aí. A culpa foi da cirrose, foi o que os médicos afirmaram. Mas em verdade vós digo que morreu de overdose; das lembrança que transbordaram seu coração sofrido, em abstenção de sorrisos. Morreu tranquilo, sem dores. Ainda sorrindo.
   (docesafagos)

   Olhos transbordando, coração vazio, sorriso desaparecido e garrafa de vinho barato em mãos. Sentado de fronte a janela, Augusto encarava a vida. Sofria de cirrose de tanto afogar suas lágrimas, tinha os pés dormentes de tanto caminhar sobre os cacos do seu próprio coração e a depressão era sua melhor amiga. Pobre senhor! olhava o relógio de pulso como se esperasse que ele engolisse as horas e o deixasse viajar o tempo. Para o fim, quando enfim abandonaria essa vida vil. Ou, melhor ainda, para o passado, quando foi feliz. Queria voltar a sentir o cheiro das chuvas de verão batendo sobre o seu rosto juvenil, sentir as gotas batendo na palma da sua mão e escorrendo por entre seus dedos. Ironicamente, agora chovia, mas ele já não tinha nem um terço de seu olfato, e suas mãos pendiam dormentes ao lado do seu corpo. Queria poder olhar no espelho e ver aquele moço cheio de vitalidade que um dia costumava sorrir, mas só enxergava um velho enrugado e triste. Não! queria voltar a ser criança, correndo travessa de adultos que balançam vassouras no ar gritando ofensas, irritados com suas traquinagens. Agora, mal conseguia andar sozinho. Mas queria, acima de tudo, suas lembranças. Queria poder lembra detalhadamente da sensação da mão de sua esposa amada segurando a sua, do gosto de maça caramelada e pipoca recém estourada, do cheiro de café no fim da tarde ou do sabor de um beijo cheio de amor. Não lembrava. Se já não podia, nem mesmo em recordação, sentir outra vez tudo que um dia o fez feliz, como podia sorrir? seu sorriso foi fiel aos seu mais esplêndidos dias. Quando enfim acabaram as chances de vivê-los, o sorriso não mais aparecia. Nunca mais apareceu. Afinal, não tinha mais expectativas. Nem ousava mais sonhar. Ah, mas que desgraça é viver sem sonhos! 
   O copo agora já estava vazio. Augusto ainda encarava a vida. Era bom naquele jogo: passará horas ali, e nem um rubor invadiu seu rosto. Por fim, alguém rendeu-se. Augusto ou a vida?
   Augusto enxugou as lágrimas, largou o copo, de repente, e sorriu. Sentiu uma fisgada na altura da barriga. Já havia sentido aquilo… chamavam de frio na barriga. Enfim, lembrou. Lembrou de cada motivo pelo qual curvava os lábios um dia. Ergueu as mãos para fora da janela e sentiu as gotas d’água acariciarem seus dedos. Respirou seu ultimo sopro de vida. 
   Encontraram-o na manhã seguinte. Ainda sentado em frente a janela com seus noventa e cinco anos pesando em suas costas corcundas. Morreu de velhice, era o que comentavam por aí. A culpa foi da cirrose, foi o que os médicos afirmaram. Mas em verdade vós digo que morreu de overdose; das lembrança que transbordaram seu coração sofrido, em abstenção de sorrisos. Morreu tranquilo, sem dores. Ainda sorrindo.

   (docesafagos)