
Essa história é sobre a menina de sardas e fita rosa, Antônia, e o moleque da praça, Julio. Se não gosta de clichês sugiro que pare sua leitura, pois aqui nessas memórias me considero um autor piegas; ou seria isso um apelido para o que planejo contar. Antônia, meu caro leitor, é aquela moçinha de berço em ouro puro sufocada por uma redoma de cristal, e Julio é o moço humilde que conquista seu coração. Como eu disse, clichê. Saiba você que eu, além de narrador, já fui Julio; velhos tempos, agora sou apenas um identificado que grava em papel suas lembranças, usando terceira pessoa. Mas, ignorando meu ponto de vista, contarei a minha vida e, para começar, posso dizer que minha vida foi Antônia. Ah, que cabeça a minha… a vida de Júlio foi Antônia. Conheceram-se ainda muito crianças, de maneira que não podem dizer ao certo qual foram os primeiros pensamentos infantis que chuviscaram em suas mentes naquele momento mágico, mas Antônia gostava de dizer que sentiu como se todas os doces do mundo não fossem trazer mais glicose à sua veia do que aquele olhar de criança. Era agradável para ela sentir como se aquele amor fosse “a primeira vista” como nos filmes que tanto admirava. Eram inseparáveis até uns seis ou sete anos de idade, quando Antônia ainda passeava pelas ruas acompanhada por Glória, sua então babá. Mas não demorou para que a velha morresse, de uma tuberculose cruel e corriqueira na época; então a menina passou a permanecer dias trancada em seu quarto, sem a atenção de ninguém.
Passou-se alguns anos até que Antônia voltasse a aparecer pelas esquinas da pequena cidade interiorana. Lembro que nos primeiros dias que Antônia passou dos limites do seu majestoso jardim ninguém a reconhecia, era como se fosse uma estrangeira na sua própria cidade natal - apenas Julio teve a impressão de que a moça não havia mudado sequer um traço. Na época, ela devia ter uns quinze anos, era dona do mesmo sorriso travesso que Júlio costumava provocar, de olhos meigos e azuis e cabelos cor de bronze pouco acima da cintura; também já era uma moça feita, com curvas marcantes e seios formados. Nesta época, Júlio era pedreiro e trabalhava em uma construção que ocorria nas proximidades da mansão da menina, mas nem em seus mais loucos sonhos ele imaginava que ela lembraria do garoto com o qual construía casinhas de areia. Mas ela lembrava, leitor, talvez mais do que ele; devido ao grande tempo em que esteve entediada, apenas na companhia de suas próprias memórias. Mas, por mais estranho que pareça, eles fingiram desconhecer-se por um bom tempo, nesse impasse – ou talvez insegurança.
Mas, como não se dispensa em um romance não-original, houve a força do destino. Acredita, Zé (Posso te chamar assim, meu caro?) , que foi um tijolo que uniu aqueles tolos amantes? Um simples tijolo que, travesso, insistiu em não ficar em seu lugar e cair por cima de Julio. Antônia passava logo em frente naquele momento e correu para ser prestativa. Aí não houve atuação que conteve a emoção. Creio que a possibilidade de um machucado no dono de suas lembranças despertou entre os dois algo que nunca morrera. Era como se eles nunca tivessem negado uma a existência do outro, como se voltassem aos tempos do castelo de areia e a princesa dos olhos de Antônia brilhasse no reino de Júlio.
A parti de então eles passaram a se encontrar em todos os passeios rotineiros de Antônia, deixando Julio cada dia mais apaixonado pela moçinha de cristal. A adolescência dos dois afloravam por onde passavam, deixando rastros de risinhos e conversas bobas que sobrepunham os vizinhos obtusos. Apesar de ignorá-los, eles continuavam a serem observados por velhos e adultos, que não possuíam nada a fazer, a não ser cuidar da vida de um casal aparentemente feliz de mais para todos os problemas que conheciam - problemas como o bolo queimado no forno ou o fato de não terem uma televisão maior. Mas cidade pequena é assim mesmo, Zé, todo mundo cuida da vida de todo mundo e ninguém cuida da própria.
Entretanto o mundo de Júlio era reduzido a segundos - que mais pareciam horas - esperando o término do horário de trabalho, junto com a ânsia de ver aqueles olhos delicados encontrarem os seus para mais um encontro. A mãe de Antônia de nada sabia, pois apesar de tudo, aquela cidadezinha de 10 mil habitantes ainda guardava em seu âmago os costumes de um tempo antigo. Infelizmente, Zé, os vizinhos não contentaram-se somente em observar, passando então a falar. Não é difícil imaginar o que aconteceu. A mãe de Antônia logo soube do que acontecia e Julio não a viu por um bom tempo.
Um bom tempo não é todo o sempre. O que parte o coração é que, quando Julio voltou a rever Antônia, foi tão somente para uma despedida. Aflita do jeito que estava, conseguiu encontrar-se com ele em meio a construção, dizendo-lhe que se mudaria na manhã seguinte, mas que nunca esqueceria dele. Eis que aquela noite foi a mais feliz e mais triste de toda a vida do Julio. Ambos rasgaram o peito de amor e declararam-se apaixonados um pelo outro, no entanto, esse amor não teria continuidade já que Antônia viajaria no raiar do dia.
Agora, enquanto escrevo, eu paro e penso em como descrever em detalhes aquele dia que marcou minha vida… digo, a vida de Júlio. Ele estava lá, parado na frente da estação de trem, vendo Antônia esperando o veículo que a levaria para bem longe de sua felicidade. Ele pensou em ir sem malas ou medos junto com ela, ou em puxa-la para impedir que o “adeus” acontecesse, mas o impulso insensato logo desapareceu. O trem chegou e Antônia sussurrou para Júlio do outro lado da estação: “Eu amo você”. Então ela entrou pela porta de saída do nosso amor.
Nem sei o que seria de mim, Zé, se Antônia não tivesse saído daquele trem quando percebeu a imensidão de nosso “à dois”. Esquece a terceira pessoa, leitor. Agora eu, Julio, estou sentado ao lado da bela Antônia - que agora me olha com a testa franzida e um sorriso incentivador marcado por uma tristeza visível. Acho que acabamos de conversar sobre algo sério, e eu decidi que escreveria isto para ela, para nunca esquecermos da nossa história. Mas nossa história não tem como ser esquecida, certo? Isso tem um motivo o qual eu não consigo lembrar agora. Ela sussurou no meu ouvido que tudo ficaria bem, mas eu não sei por que não ficaria; ela sempre se preocupava demais com as coisas. Começo a me lembrar que fui ao médico hoje, e Antônia chorou feito criança e saiu do hospital com o seu rosto angelical todo vermelho. Mas o que foi que aquele doutor disse para minha pobre Antônia? Sei que agora voltou a cair em pranto do meu lado e segurou minha mão… acho que ela quer reconstruir aquela casinha de areia que fizemos semana passada; mas tem que ser rápido, Glória chegaria em breve e a levaria para casa. Mas Glória já morreu, certo? O que eu estou dizendo? Por favor, Antônia, não vá embora. Sua mãe não entende que viver sem ti é impossível pra mim? Por favor não suba nesse trem, não suba. Eu te amo tanto, não se vá. Ai Zé, ela pulou nos meus braços, ela ouviu minhas preces. Daqui pra frente agora é só felicidade. Desculpe-me fazer-te ouvir meus lamentos, mas tenho que ir, levar Antônia de volta pra nossa ruazinha… de onde ela nunca deveria ter saído. Ah, Zé, lembrei o que o médico disse… acho que vou morrer.
“Alzheimer?” Antônia sussurrou entre lágrimas.

Ele desviava o olhar e sem perceber o tanto que a mocinha dedicava a ele.
Ela poetizava intensamente todo o amor que há nesta vida, com singularidade inconfundível, em rascunhos guardados dentro de si a sete chaves.
Ele se distraía com programas de tevê tão vazios quanto teu pedaço de rascunho já perdido. Tão insano.
Ela, o comparava com o raio ‘dum sol, onde emitia luz pálida, cintilava teu espírito, perdido. Transmite teu clarão que às vezes, machuca os olhos. E como a machuca…
Ele a considerava estrela muitas vezes solitária, ofuscada pelo clarão da lua. Astro sem valor, ponto luminoso que se transforma, lentamente, ao relento, em anã branca e some, explode sem emitir som para os terrestres.
Ela considerava-o a exclamação mais magnífica, a reticência que dava continuidade a uma beleza e simplicidade sem fim. Não queria ser piegas, mas sabia que encantamento era pouco pra tanto sentimento que transbordava.
O tal moço se considerava apenas uma interrogação, uma vírgula mal colocada parando a vida, um paradoxo ambulante.
Ela comparava-o as quatro estações: verão que transmite tal brilho, primavera com teu reflorescer constante, outono com teu dourado mais belo, inverno com teu mistério.
Ele comparava-o as fases da lua: crescente, aumenta – cada dia mais – teus devaneios. Minguante, logo que enxerga a impossibilidade, diminuía todos eles. Nova, que se renovava a cada manhã, como um deleite á um chá de esperança. Tudo de inteiro… Completo que ele nunca fora.
Ficava tudo assim, esse amor subentendido lançado no ar de forma leve, brutal aos olhos dos enamorados. Esses pedaços que se seguiam poderiam ser chamados de puro desespero. Mas o que fazer? Alguns diriam que tantas metáforas fariam alusão a uma história clichê, longe disso. Ele continuava assim, longe, assim menino, na esquerda da rua, vendo-a atravessar. Tudo assim… Intenso do modo que seja. Com tais reticências…
Se me dissessem que essa história seria real, eu teria negado, afinal apenas sou um narrador a notar tais olhares. Agora me digam por qual razão a tal menina não se desatava a ser flor? Diriam os intelectuais que, era moça demais para tais encantos, não entendia toda essa magia que aquele sentimento se desatava…
Então tratei de ficar assim, olhando pra lá, olhando pra cá. Certo dia, decidi formar um acaso, comecei a gritar feito um louco no meio ‘duma rua:
- Moça, moça! Moço, moço!
Os dois seguiam meu olhar, de certo achavam que era um lunático por tais dizeres, mas hei que os dois vieram em minha direção, corri ‘pra perto ‘dum barzinho qualquer.
O moço logo sussurrou:
- Ele considerava-a estrela muitas vezes solitária, ofuscada pelo clarão da lua…
Ela toda risonha, nervosa perguntou:
- O quê, moço?
- Venho um tempo a te olhar, e tenho que te dizer, sou apaixonado por teus olhos…
-Mas, mas, como assim?
- Se me dissessem para salvar algo neste mundo, diria logo que fosse você. Droga moça desculpe te dizer, mas é que amo você…
Ela ficou perplexa olhando sem compreender.
- De onde me conhece, moço?
- Depende. Vejo-te todas as noites em meus sonhos, isso conta? Também quando desato a desenhar, seu rosto sai meio desgrenhado, mas sei que é você pelos olhos… E ah… Também tem quando estou ouvindo uma música. Sempre ela rima com seu nome, moça. O Universo me persegue para te amar. Talvez tenha sido acaso o lunático vir te falar, mas sabe… Eu tinha que me declarar… Des-cul-pe… – O coitado gaguejava mais que rádio velho…
- Não se desculpe…
- Sabe me disseram que por tais ruas eu tinha que encontrar, mas como seria? Não sabia se iria me amar. Certo dia te vi entrar ‘numa destas floriculturas, não pude suportar. Parei de vim aqui, atravessar, te visitar. Eu decidi que meus sentimentos a ti, não iria mais ornar. Mas moço… Essa explosão de coisas não cabe mais em meu peito. Desculpe não poder te dizer tanta poesia boa, mas é que… Faz tanto bem te olhar de soslaio. Um dia esperei que viesse a falar comigo, mas não veio. Deveríamos agradecer ao lunático. Pois teu amor é meu amor, é tudo recíproco, moço… Não acha… Que…
Ele a interrompeu. Deu duas passadas longas em sua direção e em sua boca, ele pela primeira vez não hesitou, ou correu, apenas a beijou…
- Quem precisa de todo este jogo de metáforas… Tenho você, é tudo que basta.
- E eu? Tenho você, moço?
- Por inteiro.

Surgiu em mim um sorriso forasteiro, inesperadamente sincero e surpreendentemente preenchido. Não bateu a porta nem anunciou chegada, só tornou-se iminente e aproximou-se cheio de aconchego. Encheu-me de prazer com uma simples visita. Servi-lhe uma xícara de café, e pedi que ficasse. Se pudesse, para sempre. Nunca havia sentido necessidade tão grande de uma companhia. Mas o pó do café caro acabou um dia, e a visita inesperada teve que partir. Prometeu que voltava, mas de promessas minha gaveta é lotada. Deixou contatos em um cartão pequeno, mas tentei ligar e o número não existe.
Igualmente inesperado, e repleto de surpresas, retornou. Tinha tornado-se um sorriso poderoso, e me fez acreditar ainda mais na sinceridade, trancando a minha dolorosa gaveta de promessas para torná-las evidentes realidades. Realidades, que o tão encantador sorriso forasteiro acompanhava. Como o pó de café já não lhe era suficiente, puxei-lhe uma cadeira, a fim de fazê-lo permanecer estável, apenas proseando, e admirando uma tão gostosa melodia. Porém, uma hora eu errei e acidentalmente deixei-o partir, depois de tanta prosa e melodia.
Neste vai e vem de sorrisos e desgostos sei que sempre estarei à espera, com meu coração preparado, sempre ansioso por uma nova visita. E sei também que por mais que um dia retorne, sempre haverá de partir novamente. Enfim, me acostumei a despedidas, mas ainda não aprendi a não sofrer com elas. E enquanto o forasteiro visita novos lares a porta permanece aberta, e por ela entra aqueles males de que hoje tanto sofro: a saudade da felicidade. (ecstasydeamor) e (inumeras sensações)

Era setembro. Chovia forte, e ela passava por uma velha loja de antiguidades na qual acabou por entrar. Molhada e desconfortável, ela olhou o ambiente sentindo o cheiro delicioso do tempo que passou. Curiosa, ela caminhou lentamente até parar em uma sessão de portas-retratos empoeiradas.
E ali ficou contente. Para quaisquer outros olhos, eram porta-retratos comuns. Mas para ela, poeta de alma, eles exprimiam algo além. Ela via no sorriso de cada uma daquelas pessoas, que estampavam a imagem no objeto, os sonhos que pretendia alcançar. Um casal apaixonado beijava-se dentro de uma moldura dourada; uma moça feliz levantava seu diploma, orgulhosa de si, em uma moldura amadeirada; um casamento dos mais belos, de dois amantes, acontecia entre as peças prateadas. Ela passava os olhos em cada um pedindo baixinho “Quero viver a essência desse momento, um dia”.
Lá estavam, em meio à poeira e em puro abandono, os retratos do seu futuro. “Quanto custam?” ela perguntou a vendedora da loja, que informou o valor. Satisfeita, ela levou para casa os porta-retratos que expôs na escrivaninha em frente à cama. Mal sabia que futuramente ela estaria feliz, sentada confortavelmente em sua sala, abrindo uma caixa amarela, e trocando aqueles sorrisos desconhecidos pelos retratos dos momentos em que viveu as essências que um dia, em meio a antiguarias, ela havia sonhado em viver. E lá estava seu futuro, seus maiores devaneios sólidos à sua frente. Encontrou-se nos olhos dos desconhecidos presentes nas belas molduras. Ela viu seu amor próprio, já escondido, espelhado nos olhos da recém formada. Cheia de orgulho, cheia de si! Viu se espelhada nos olhos da mulher que havia encontrado a amor, e transbordava cor ao lado de seu amante. Viu seus devaneios mais secretos entrelaçados com as molduras, transbordando pelo vidro. Seus sonhos, tão seus, tão secretos. Estavam ali compartilhados por estranhos que pareciam carregar o mesmo brilho de seus olhos, estranhos que poderiam muito bem ser ela mesma. Aquele brilho tão dela, só dela. Estava ali diante de seus olhos pra mostra-lhe que como tantos outros ela pode realizar seus sonhos. Então ela adormeceu como noutras noites, mas essa noite de setembro foi mais especial. Ela adormeceu imersa em esperança.
(docesafagos) e (latua-cantante)
