Era fim de tarde, pela janela entravam uns fracos raios de sol e tocavam minha pele fria. Estava serena, estava suave, por nada. Fiz um chá e me pus à mesa. Logo que sentei-me, percebi um vento de presença, carregado de ausência. Era a essência do vazio presente naqueles cabelos negros, e roupas acinzentadas. Tinha a pele perolada e os olhos tão negros, que já não se viam pupilas. Em suas mãos, parecia trazer cura pra corações encharcados. A passos largos e serenos- como que em dança sem música- sentou-se de frente a mim.
Apresentou-se sem nenhuma palavra sequer. Ao meu espanto, se pôs a sorrir, devia ser sempre mal desenhada aos olhos, de todos e qualquer um.
Solidão, de uma doçura ímpar, se pôs a lenir-me. Acariciava-me os cabelos, e de gota em gota, foi drenando as dores que transbordavam de meus olhos. Pôs meu coração a chorar as dores que me fizeram e as que fiz à outros, também.
Encheu-me de labéu, pois não passou-me nem por um instante sequer a imagem de labrega, que tanto esperei. Era de uma suavidade, de um cuidado, de um aconchego, de uma paz…
A afagar meus cabelos, sentia cada necessidade de presença ser retirada pelas pontas daqueles dedos. Foi me deixando vazia, me enchendo de espaço pra… nada. Me tocou o peito e fechou os olhos, ali me fez amiga. Me deu conforto em estado de falta.
Com alguns sorrisos leves, e olhos carregados me ensinou a arte do viver só. Me deu o prazer nela, e nos fez íntimas em alma, e dentro de mim, já não se distinguia quem era quem.
Solidão me possuiu.
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