
Olhos transbordando, coração vazio, sorriso desaparecido e garrafa de vinho barato em mãos. Sentado de fronte a janela, Augusto encarava a vida. Sofria de cirrose de tanto afogar suas lágrimas, tinha os pés dormentes de tanto caminhar sobre os cacos do seu próprio coração e a depressão era sua melhor amiga. Pobre senhor! olhava o relógio de pulso como se esperasse que ele engolisse as horas e o deixasse viajar o tempo. Para o fim, quando enfim abandonaria essa vida vil. Ou, melhor ainda, para o passado, quando foi feliz. Queria voltar a sentir o cheiro das chuvas de verão batendo sobre o seu rosto juvenil, sentir as gotas batendo na palma da sua mão e escorrendo por entre seus dedos. Ironicamente, agora chovia, mas ele já não tinha nem um terço de seu olfato, e suas mãos pendiam dormentes ao lado do seu corpo. Queria poder olhar no espelho e ver aquele moço cheio de vitalidade que um dia costumava sorrir, mas só enxergava um velho enrugado e triste. Não! queria voltar a ser criança, correndo travessa de adultos que balançam vassouras no ar gritando ofensas, irritados com suas traquinagens. Agora, mal conseguia andar sozinho. Mas queria, acima de tudo, suas lembranças. Queria poder lembra detalhadamente da sensação da mão de sua esposa amada segurando a sua, do gosto de maça caramelada e pipoca recém estourada, do cheiro de café no fim da tarde ou do sabor de um beijo cheio de amor. Não lembrava. Se já não podia, nem mesmo em recordação, sentir outra vez tudo que um dia o fez feliz, como podia sorrir? seu sorriso foi fiel aos seu mais esplêndidos dias. Quando enfim acabaram as chances de vivê-los, o sorriso não mais aparecia. Nunca mais apareceu. Afinal, não tinha mais expectativas. Nem ousava mais sonhar. Ah, mas que desgraça é viver sem sonhos!
O copo agora já estava vazio. Augusto ainda encarava a vida. Era bom naquele jogo: passará horas ali, e nem um rubor invadiu seu rosto. Por fim, alguém rendeu-se. Augusto ou a vida?
Augusto enxugou as lágrimas, largou o copo, de repente, e sorriu. Sentiu uma fisgada na altura da barriga. Já havia sentido aquilo… chamavam de frio na barriga. Enfim, lembrou. Lembrou de cada motivo pelo qual curvava os lábios um dia. Ergueu as mãos para fora da janela e sentiu as gotas d’água acariciarem seus dedos. Respirou seu ultimo sopro de vida.
Encontraram-o na manhã seguinte. Ainda sentado em frente a janela com seus noventa e cinco anos pesando em suas costas corcundas. Morreu de velhice, era o que comentavam por aí. A culpa foi da cirrose, foi o que os médicos afirmaram. Mas em verdade vós digo que morreu de overdose; das lembrança que transbordaram seu coração sofrido, em abstenção de sorrisos. Morreu tranquilo, sem dores. Ainda sorrindo.
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