
Eu não chego como flecha. Não há cupido que me dê às direções; eu não recebo ordens. Eu não sou, nem ao menos, destino certo. Muitas pessoas perguntam-se como eu funciono – como se eu fosse um mecanismo, um processo. Se eu pudesse respondê-las, diria que sou chama. Geralmente, incendeio, logo de cara, corações antes gélidos. Mas, em algumas vezes, gosto de brincar de ser faísca e começo aquecendo, aos poucos, os meus aposentos. Independente do meu primórdio, permaneço chama, e perduro.
É comum tentarem me esconder no fundo do peito, me afogar na mesa do bar ou me enterrar entre as artérias – mesmo que tudo isso venha a custar alguns meses de lágrimas, uma cirrose pesada ou uma arteriosclerose grave. Talvez você mesmo tenha feito isso algum dia. Se sim, eu te digo: eu me contraio, eu espero, eu agüento. Mas nunca se engane, eu ainda existo. Eu sempre existo. E a isso, meu caro, você deve agradecer. Afinal, sua existência é subordinada a minha. Você já deve ter ouvido algumas histórias sobre quando não me carregam no peito. “Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria”. Ah, que sábias palavras! Nada seria. Sem mim, você nada seria. E aí mora um tremendo perigo, meu amigo. Ser nada é seduzir a minha velha amiga que costuma carregar almas por aí. Não vai querer deparar-se com ela. Porém, mantenha calma, meu bom homem, eu não sou ameaça - ao contrário do que muitos pensam. Não sou argumento para essa minha tal amiga. Eu sou até agradável. Arrisco, até mesmo, dispensar a humildade para afirmar que sou doce, aconchegante e amigo. E, digo logo, nem sempre sou paixão.
Eu sou a base do sorriso, o motivo para vida, e a razão da bondade. Se um dia eu pousar em seu peito, não se assuste, pois também sou beija-flor. Trago boas novas. Sou a frecha de luz que passa pela janela entreaberta. Minha chama queima forte, mas não machuca. Se eu for sincero apontarei o caminho certo – se ele existir. Você pode atrapalhar-se com minha visita, pode vir a esquecer seu nome enquanto eu ecoar na sua mente. Pode delirar. Mas, no fim, saberá que sou o que sempre esperou. Sou eu que vou pintar o retrato do homem orgulhoso segurando nos braços seu pequeno fruto. Ou do ancião meio calvo na cadeira de balanço, segurando a mão da bela esposa ao lado. Seu retrato, querido. Seu retrato no qual eu mesmo estarei retratado e pincelado com cores sutis, do sorriso no rosto às pontas dos pés unidos.
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