Nós morremos, Miguel

No momento em que decidimos ser amor, morremos na solidão. E vivemos, por um bom tempo, na felicidade. E quando, então, decidimos ser saudade, nos afogamos nas próprias lágrimas. Nos encontraram meio roxos, sufocados. De olhos abertos e pulsação apagada. Nós morremos, Miguel. Você aí e eu aqui; mas morremos, juntos.

Quem me dera, meu amor, poder ter soletrado a vida com mais fervor. Quem me dera ter escondido o orgulho no pote de biscoitos e ter te ligado nas madrugadas frias, atras de consolo. Quem me dera ter tido a coragem de comprar as passagens - sem volta - para onde quer que tu estivesse. Quem me dera ter sido vento correndo até ti, ou poeira sendo levada até você. Quem me dera ter estado não só em ti, mas também contigo. Ah, Miguel, quem me dera ter vivido em ti assim como morri ao teu lado. 

Houve quem disse que morremos de amor, Miguel. Mas não, isso não procede. Nós nascemos pelo amor, vivemos pelo amor, mas morremos pela abstinência de carinhos. Morremos pelos afagos que não pudemos trocar, pelas palavras que não pudemos pronunciar, pelos sorrisos que não pudemos provocar. Faltou sua boca na minha, seus mimos, meus afetos. Faltou tudo, Miguel, menos amor. O amor perdura, e, um dia, há de nós ressuscitar. Te vejo em breve, meu querido, em algum lugar. Onde não possamos faltar, onde conseguiremos transbordar.

(docesafagos)

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